Poema – n° 392

éramos muitos

somos poucos

poucos em cada

grandes

únicos

poucos por fora

por dentro inúmeros

somos poucos

éramos tantos

em tantos arranjos

fomos perdidos

então nos achamos

eu fui

tu fostes

nós somos

hoje ainda

tantos de nós

em cada esquina

encontrados ao acaso

não nos reconhecemos

somos mínimos

antes infinitos

hoje poucos

amanhã quantos?

quantos se hão de lembrar

de onde vieram

quando muitos

ainda eram poucos

infinitos somos

por dentro

por fora

quantos?

Poema – n° 391

se penso que é isto

é aquilo

 

quando ando na via

é láctea

 

se olho pro céu

é noturno

 

se me perguntam pra onde vou

sigo meu rumo

 

o rio que vai quando volta

já foi

 

se me dizem “bom dia, como vai?”

respondo “oi”

 

a corda é do lado mais fraco

que desfia

 

o amanhecer traz escondido

o novo dia

 

na balança meu peso

não é por quilo

 

minhas lágrimas não são

de crocodilo

 

 

Poema – n° 390

ficou vazio

porque encheu demais

de tanto ter nada

que transbordou

deu volta completa

e nunca voltou

 

saiu pra aonde ía

mas nunca chegou

já foi colorido

descoloriu

quando me olhou

mal disfarçou

mas não riu

 

um dia alto

noutro dia baixo

correu pra um lado

e nesse lado ficou

quando era ontem

disse que voltava

quando virou hoje

ninguém chegou

Poema – n° 389

Acordou triste e sorumbático

pois um problema matemático,

uma função de crescimento quadrático,

o deixara lunático

provocando fortes dores em seu fraco sistema hepático.

 

Descobriu-se dogmático,

de caráter estritamente prático.

Deixara de ser simpático,

era quase psicopático.

Quem antes o considerava um homem bem carismático,

hoje via nele um perigoso fanático.

 

Seu caso, cada dia mais problemático

de obsessão pelo acima citado quadrático,

foi ganhando um ar dramático;

o homem permanecia estático

com um semblante enigmático.

 

Levado por amigos a um médico asiático,

iniciou tratamento com um remédio alopático.

O que ocorreu dali em diante foi paradigmático:

o homem ficou asmático,

com forte dor no ciático,

foi ficando reumático,

fleumático,

o que foi muito sintomático!

 

Foi então levado a um exímio matemático,

que lhe deu uma resposta para o crescimento quadrático.

A solução mais simples e sem aparato burocrático!

O homem voltou a saúde, amanheceu simpático!

 

Até que se deparou com um problema gramático,

uma questão proposta por filósofo pré-socrático,

um conflito idiomático,

um distúrbio microclimático,

um contratempo eurasiático

(provocado por um partido social-democrático),

e um grave conflito político-diplomático

que ocorria às margens do Mar Adriático…

 

Até hoje ouço dizer, “mas que caso emblemático

esse do homem obcecado por um problema matemático

que após livrar-se daquilo que o deixara fanático,

encontrou novos motivos pra se manter lunático!”

Poema – n° 386

amor é quando a gente olha dentro dos olhos de alguém e vê um horizonte

quando não encontra lugar mais confortável que dentro de um abraço

amor é quando só de sentir a pele do outro encostando na nossa a gente se acalma

e quando descobre que o cheiro de quem a gente ama é o mais nobre dos perfumes

amor é sorrir só de lembrar do sorriso da pessoa amada

olhar sempre como se fosse a primeira vez e se admirar por não estar sonhando