Poema – n° 401

era um sujeito elíptico

a gente sabia que estava ali

mas não via

olhava prum lado e não via

olhava pr’outro lado e não via nada

diz que não fazia falta ser visto

mas de pertinho era até cortês:

era um sujeito elíptico por timidez

 

 

 

 

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Poema – n° 400

diz que o menino comia que nem passarinho

eu nunca acreditei

até o dia que vi o menino empoleirado num galho

bicando fruta até cair

até cair a fruta e não o menino

porque menino passarinho quando empoleira não cai

de jeito nenhum

depois o menino saiu voando e pousou no meu cabelo

ele assobiou baixinho que meu cabelo era o lugar perfeito

pra fazer ninho

Poema – n° 399

 

queria ter olhos

que enxergassem

através das distâncias

 

mãos que alcançassem

a cúpula celeste

 

pés que dessem

passos largos

que de quatro em quatro

eu contornaria a Terra

 

queria ter ouvidos

de ouvir

as explosões estelares

 

queria sentir

o sabor das estrelas

e fazer brilhar

o céu da minha boca

 

tocar com a ponta

dos dedos

nas águas cristalinas

das mais escondidas

nascentes

 

queria sentir

o calor das sementes

Poema – n° 398

eu, gerúndio

tu, particípio

 

enquanto eu estava partindo

tu já havias chegado

 

quando eu estava dançando

tu já estavas parado

 

meu sonho ainda sonhando

tu desperto acordado

 

eu na vida continuando

tu vivias destinado

 

por mim o tempo ia passando

em ti a gente era passado

Poema – n° 394

quando a máquina do tempo

finalmente funcionou

aqueles dois cientistas ficaram tentados

a ajustar os ponteiros

sincronizar as vidas

corrigir todas as distorções

infelizmente

depois de todos os acertos

toda graça fora perdida